MAIO – DIA DAS MÃES
As muitas faces da maternidade
O mês de maio, tradicionalmente associado às celebrações do Dia das Mães, convida-nos a uma reflexão que ultrapassa as homenagens e os afetos socialmente instituídos. Afinal, quem são as mães?
São mulheres diversas: aquelas que gestaram, as que adotaram, as que cuidam, as que exercem a função materna para além dos laços biológicos. São também as que se desdobram entre o trabalho formal, a organização da casa, o cuidado com os filhos, com os animais de estimação e, muitas vezes, com outros membros da família. A maternidade, nesse sentido, não se restringe a um papel único, mas se configura como uma experiência plural, atravessada por demandas visíveis e invisíveis.
Sob a lente da psicanálise, podemos pensar a maternidade como um lugar simbólico, marcado por expectativas sociais e ideais muitas vezes inalcançáveis. A figura da “mãe que dá conta de tudo” equilibrando múltiplas funções, como se estivesse permanentemente sobre uma corda bamba, revela não apenas força, mas também a pressão de um ideal que pode produzir sofrimento psicológico. Quantas dessas mulheres sustentam, silenciosamente, a exigência de serem completas, disponíveis e incansáveis?
Mas é preciso ampliar ainda mais esse olhar. Quem é a mulher que trabalha na roça, que enfrenta jornadas exaustivas no campo? E aquela que atua nas ruas, no trabalho informal, lidando diariamente com a instabilidade e a insegurança? Quem é a mulher que vive à margem, exposta à violência doméstica, à precariedade e à invisibilidade social?
Essas mulheres também são mães ou exercem funções de cuidado e suas experiências frequentemente escapam das narrativas idealizadas. São vidas atravessadas por desigualdades estruturais que intensificam a sobrecarga e o risco. Ser mulher, em muitos contextos, ainda implica viver sob constante tensão, negociando espaços, direitos e, não raramente, a própria sobrevivência.
Neste maio, talvez a escuta seja o gesto mais necessário. Escutar essas mulheres em sua singularidade, reconhecer suas múltiplas realidades e legitimar seus afetos, suas dores e seus limites. Mais do que celebrar, é tempo de compreender: a maternidade não é um lugar homogêneo, mas um campo complexo, onde coexistem potência e vulnerabilidade.
E, sobretudo, é tempo de perguntar: que espaço estamos oferecendo para que essas mulheres, mães, possam existir para além das expectativas que lhes são impostas?

Sou Renata Machado, Psicóloga (CRP 06/220838) com ênfase em Psicanálise, e acredito que o acolhimento começa dentro de nós. Você já se escutou hoje? Já se permitiu sentir, refletir, cuidar das suas emoções com carinho? Acolher-se é um ato de coragem e amor próprio. Vamos conversar mais sobre isso?
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*Artigo publicado no impresso Jornal TRIBUNA da Cidade – Edi. 205 - maio 2026
