Talvez a verdadeira pergunta não seja "de que lado eu estou"...

Nos últimos meses, entre manchetes fervorosas, embates acalorados e decisões judiciais que parecem sair do forno direto para as redes sociais, venho me perguntando: o que, de fato, estamos ganhando com tudo isso? E mais especificamente: será que estar de um lado – seja esquerda ou direita – ainda representa alguma forma de conquista real para o cidadão comum?

O debate político no Brasil se cristalizou em um sistema binário, quase maniqueísta – doutrina que defende a existência de duas forças primordiais e externas; o bem (reino da luz) e o mal (reino das trevas). É como se fôssemos obrigados a torcer por um time, ignorando que a política deveria ser mais sobre resolver problemas concretos do que defender narrativas. Enquanto isso, a vida cotidiana do brasileiro médio segue imutável: inflação que resiste, salários defasados, insegurança pública e um futuro incerto.

Nesse cenário, surgem movimentos globais com impacto direto no Brasil, mas que parecem passar despercebidos no calor da polarização. Um exemplo emblemático é a aplicação da Lei Magnitsky, uma legislação criada inicialmente nos Estados Unidos para punir violações de direitos humanos e corrupção em escala internacional. Em 2023, o Brasil sancionou sua própria versão da lei (Lei nº 14.691, de 03 de outubro de 2023), conhecida informalmente como a “Lei Magnitsky brasileira”, permitindo a imposição de sanções a indivíduos estrangeiros – ou nacionais – envolvidos em graves violações de direitos humanos ou atos de corrupção, para punir indivíduos envolvidos em crimes graves, independentemente de onde tenham ocorrido.

A ideia parece simples e nobre: usar o poder do Estado para coibir abusos e proteger os direitos fundamentais. Mas na prática, a aplicação da lei já entrou no mesmo tabuleiro da disputa política. Houve sanções simbólicas a figuras estrangeiras ligadas a regimes autoritários, mas também começaram a circular boatos e insinuações de que adversários políticos internos poderiam ser “internacionalizados” com base em acusações frágeis – ou, ao contrário, blindados por alinhamentos ideológicos.

E aí volto à pergunta: quem está ganhando com tudo isso?

Se estou à esquerda, vejo avanços sociais sendo lentamente engolidos pela falta de articulação, pela dificuldade de diálogo com a classe média e pelas alianças pragmáticas que contradizem os próprios princípios. Se estou à direita, observo o discurso da moral, honestidade e dos bons costumes sendo utilizado como escudo para práticas autoritárias e para o enfraquecimento de instituições democráticas. E isto não é somente sobre o país, também faz parte de uma realidade local bastando que debrucemos um pouco de observação nos poderes Legislativo e Executivo de nossa cidade.

No meio disso, sanções vêm e vão. Políticos se revezam no poder, alternando discursos, mas mantendo velhas práticas. O povo, esse sim constante, continua assistindo de fora – muitas vezes sem entender os efeitos reais de leis como a Magnitsky ou de reformas que passam sob o radar, enquanto a atenção está voltada para os assuntos em alta do dia.

Talvez a verdadeira pergunta não seja "de que lado eu estou", mas sim “que país estamos construindo? Estamos mais justos, mais democráticos, mais eficientes? Ou apenas mais divididos?”

Porque, ao fim do dia, pouco importa se quem governa se diz progressista ou conservador, se o efeito prático é o mesmo: estagnação, desilusão e a sensação incômoda de que, por mais que o jogo mude de mãos, a regra continua a mesma — e nós, como sempre, assistimos das arquibancadas.

*Artigo publicado no impresso Jornal TRIBUNA da Cidade – Edi. 197 - agosto 2025

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