Retorno à coluna “Tudo ao seu tempo” com este texto em homenagem a todas as pessoas que, em algum momento da minha trajetória, foram verdadeira presença – mesmo que hoje não estejam mais vivas ou presentes fisicamente. Foram elas que, com seus gestos gentis, estenderam a mão, ofereceram exemplos e lançaram os alicerces que permitiram que minha compreensão sobre a vida evoluísse. É por isso que hoje me coloco aqui, com humildade, para compartilhar reflexões – nesta edição, em especial, sobre a gentileza.
Por Bel Suthoff
Em tempos de pressa, intolerância e reações imediatas, ser gentil pode parecer um luxo – ou, para alguns, até um sinal de fraqueza. Mas é justamente o contrário. Gentileza é força. Uma força silenciosa, consciente e profundamente transformadora.
Diferente da mera educação, que muitas vezes é automatizada, a gentileza exige presença real. Ela nasce da empatia, da escuta verdadeira e da capacidade de olhar o outro para além de suas atitudes momentâneas. Não é algo que se faz por reflexo – é uma escolha. E escolher ser gentil, quando tudo ao redor parece pedir pressa ou defesa, é um ato de coragem.
Reagir com dureza é fácil, automático. Já responder com gentileza requer pausa, exige que estejamos conectados com o presente, conscientes de nossos sentimentos e intenções. E essa consciência – que nasce da autorresponsabilidade – é rara em um mundo onde muitos vivem no piloto automático.
A maioria dos gestos agressivos e impacientes não vem da maldade, mas da dor. Por trás da irritação, frequentemente há alguém cansado, machucado ou assustado. Por isso, a gentileza é, também, um olhar compassivo. É entender que cada palavra, gesto ou silêncio tem um impacto, e que podemos escolher causar menos dor e mais conexão.
Cultivar a gentileza começa por dentro. Respirar fundo antes de responder, observar os próprios impulsos, desacelerar e, principalmente, ser gentil consigo mesmo. Afinal, ninguém oferece ao outro aquilo que não pratica internamente.
Num mundo que valoriza a inteligência rápida e respostas prontas, talvez esteja na hora de valorizarmos a gentileza – essa inteligência emocional que opera em um nível mais profundo, mais humano. E que, aos poucos, tem o poder de mudar relações, ambientes e até o rumo de uma sociedade.
*Artigo publicado no impresso Jornal TRIBUNA da Cidade – Edi. 199 - outubro 2025
